Dona Olegarinha: musa e abolicionista



Luzilá Gonçalves Ferreira - 16/04/2013 19:16h


Ela nascera num engenho perto do Recife. Depois fora morar no arrabalde do Poço da Panela na casa ainda hoje existente ao lado do palacete dos Carneiro da Cunha. José Mariano, jovem abolicionista e político promissor, logo se apaixonou pelos olhos azuis da jovem loura e lhe propôs casamento. Olegaria Carneiro da Cunha, que se tornaria conhecida como Olegarina ou dona Olegarinha, criou os filhos à margem do Capibaribe que corria logo atrás do quintal. E desde cedo se engajou na luta a favor da Abolição. Conta-se que vendeu grande parte de suas joias, herança de família, para comprar cartas de alforria para libertar escravos. Escondia os fugidos e ajudava sua fuga para o Ceará, onde a Abolição foi decretada antes de 88: o pequeno porto ao lado da casa servia de embarcadouro para as barcaças carregadas de bananas que partiam para outras províncias. E sob as frutas, cobertos por palhas de bananeira, eram escondidos os escravos, sob a orientação de dona Olegarinha. Essas ações de cunho politico, a presença forte de uma mulher que poderia ter sido mais uma sinhazinha de casa grande ou uma frequentadora de bailes ou dos espetáculos no teatro de Santa Isabel, não passavam desapercebidos pela gente humilde do povo e pela imprensa. Como se vê no jornal a  Lanceta, periódico do Recife que em seu número 25, em março de 1890, assim informa os leitores:

 

“O Repórter de A Lanceta foi no sábado testemunha de uma cena encantadora que fez desabrochar inodora a flor da alma pernambucana. A gentilíssima Senhora do Sr. Dr. José Mariano indo ao mercado a passeio, foi recebida alegremente por algumas quitandeiras e pequenos mercadores que, cercando-a, batendo palmas, rindo-se, ofereceram-lhe presentes, mimos, festas, numa espontaneidade da gente sentir lágrimas nos olhos.

 

“A boa e virtuosa Senhora, que tantos e tão assinalados serviços prestou à causa do abolicionismo, no meio daquela manifestação carinhosa devia ter visto as grandes afeições que ela soube deixar enraizadas no coração das famílias de cor.”

 

A casa dos Carneiro da Cunha, no Poço da Panela, não se tornara apenas um refugio para os negros, mas abrigou reuniões de organizações em favor da Abolição, como a Nova Emancipadora, que iniciou suas atividades com um bazar de prendas na Festa do arrabalde. Nas atas de reuniões da Nova Emancipadora se transcrevem pedidos de proteção e liberdade, feitos por escravos. Em abril de 1883, por exemplo, encontramos uma lista de 26 senhoras, beneméritas, encarregadas de organizar algum bazar, ou manifestações especificamente femininas, como aquela Marche aux flambeaux, que reuniu enorme passeata de mulheres “sem exageração deslumbrante” como descreve o Diário de Pernambuco em 18 de janeiro de 1888.

 

Engajada na luta abolicionista, dona Olegarinha não descuidou de suas atividades domésticas. Sua luta  política  e o amor da mãe, inspirariam mais tarde o filho, o poeta Olegário Mariano, marcado para sempre pela forte presença do pai mas sobretudo pela personalidade de dona Olegarinha.  Em vários poemas Olegário, morando no Rio de Janeiro e festejado como “o príncipe dos poetas“ lembrará a casa materna, as histórias que a mãe lhe contava para o consolar, como a do Patinho Feio,  que o menino tomava para si, magrinho e feio que era, ao lado de um irmão que o maltratava.  Olegário nos deixou alguns belos poemas que são pedaços de uma história, de um tempo  no Recife, mas ao mesmo tempo, reconstituição da figura que presidia o palacete, hoje desaparecido,  ao lado da Capela de Nossa Senhora da Saúde, no Poço da Panela:

 

EVOCAÇÃO

 

Eu direi o teu nome, ó minha Mãe, ás águas livres

Do rio que me acalentava a infância inquieta:

E o rio aumentará o volume das águas

Que os rios também choram quando sofrem.

Eu direi o teu nome ás ruínas de nossa casa

Onde espalhaste o bem da tua misericórdia:

E ouvirei repetida em cada pedra do caminho

A aleluia cristã do teu nome sonoro.

Eu direi o teu nome à igreja humilde e pequenina

Do nosso bairro pobre, e o sino compassado

Teu nome levará além do céu sem raias

Nas asas ágeis das andorinha viajeiras.

Eu direi o teu nome às barcaças que levavam

Os pretos cativos e do fundo delas

Surgirão, um a um,os vultos desgraçados

Arrastando-se de joelhos para beijar-me as mãos.

Eu direi o teu nome ás árvores, ás casas,

A tudo que deu alma e vida e sonho a nossa vida:

E quando voltar, sentirei minh’alma aliviada

Do peso dessa dor que vem da tua falta.

 

           In O Enamorado da vida, R.J. 1945.

 

*Luzilá Gonçalves Ferreira – Diplomada em Letras, mestra em Teoria da Literatura, doutora em Estudos Literários pela Université Paris VII. Poetisa, ensaísta, biógrafa, romancista, crítica literária, professora universitária, pesquisadora. Conquistou vários prêmios literários, entre eles o Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, em 1988, com o romance "Muito além do corpo".



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