Denunciações e confissões de Pernambuco (1593 – 1595)

Conheça os relatos e denúncias que marcaram o período da Inquisição no Estado



31/01/2013 00:00h



 

Primeira visitação do Santo Ofício às partes do Brasil; Denunciações e confissões de Pernambuco  1593 – 1595

Editado pela FUNDARPE, Recife em 1984, MELLO, José Antônio Gonçalves.

 

Uma leitura que nos fará viajar no tempo.  A Inquisição em Pernambuco no início da nossa colonização: confissões, denúncias, prisão e tortura

 

*Por Walderico Lemos

 

     Durante os primeiro anos da nossa colonização, a Inquisição julgou e condenou muitas pessoas em Pernambuco. Segundo o livro, em 1593 chegou  em Pernambuco o inquisidor do Santo Ofício, Heitor Furtado de Mendonça, para ouvir confissões e denunciações, as mais graves seriam  remetidas para o Tribunal do Santo Ofício em Portugal  a fim de serem  julgadas. Em casos condenatórios, os réus eram submetidos às penas que poderiam ir ao extremo sofrimento através de torturas físicas e psicológicas, cujo objetivo maior era descobrir o exercício de “atos judaizantes” praticados por falsos cristãos. Por se tratar de fontes primárias, o linguajar e escrita a princípio tornam a leitura cansativa, mas aos poucos nos adaptamos às expressões e termos empregados por nossa gente na segunda metade do século XVI.

        Entre muitas denúncias, há uma cujos réus foram Diego Fernandes e sua mulher Branca Dias ambos acusados de instalarem uma Sinagoga em Camaragibe, nas terras que lhes pertenciam. Foram denunciados por Joana Fernandes, agregada e protegida dos acusados dos quais recebera educação e aprendera ofícios domésticos. Segundo Joana, "havia atitudes consideradas suspeitas para uma família que se dizia cristã:  “guardar os sábados”, ritual  do judaísmo. A denúncia de Joana Fernandes e de outras pessoas levou  à prisão e torturas as filhas do casal, que foram forçadas a confessar atitudes e ações vivenciadas no ambiente familiar  não condizentes com o cristianismo. Ambas  Foram obrigadas a  assumir  o suplício que caberia aos pais, então mortos.  Outro que fora alvo de denúncias, Bento Teixeira, autor do primeiro poema escrito em terras brasileiras, “A Prosopopéia”. Bento exercia a função de mestre de ler “no Collijo da Companhia da Villa”, onde o denunciante recebera os ensinamentos da escrita e leitura. Mais um  caso onde podemos considerar uma traição, pois como no anterior,  os acusadores eram pessoas que gozavam da intimidade e confiança dos acusados. O leitor atento irá encontrar depoimentos cujo medo favoreceu às confissões espontâneas, em busca de penitências capazes de livrar o transgressor/pecador de  padecer eternamente no inferno, ou aliviando a culpa por atos não condizentes com a conduta de um cristão.

          Porém os depoimentos e denúncias não trazem apenas informações oriundas da intolerância religiosa, medo, inveja, ao ponto de alguém se sacrificar ou sacrificar outrem, não importando vínculo afetivo, amizade ou  coisa que o valha. Nada evitaria a denúncia.   O leitor também encontrará localidades, ruas e engenhos. As profissões e o modo de vida de uma sociedade em pleno desenvolvimento, onde pessoas de diversas origens, raças, crenças e religiões conviviam no mesmo território com interesses diversos.  Lá está a construção de uma nação cuja característica principal é a diversidade. Para mim, a leitura da obra,  é uma janela aberta para identificarmos hábitos e costumes dos nossos primeiros habitantes. As relações mais íntimas são devassadas, práticas sexuais consideradas “pecaminosas” são relatadas com riquezas de detalhes. Temos aí mais  uma grande obra pertencente à Biblioteca Pública do Estado que deve ser lida por historiadores, antropólogos, sociólogos, estudantes ou quaisquer pessoas cujo interesse está focado nos costumes, crenças mitos, folguedos  e tudo que diz respeito a nossa formação em pleno século XVI.

* Walderico Lemos – é pedagogo, psicólogo,  funcionário do Setor de Obras Raras e da Coleção Pernambucana, Biblioteca Pública Estadual.

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