Memória gráfica de Pernambuco

Os designers e pesquisadores Sebba Cavalcante e Silvio Barreto Campello fazem estudo sobre os periódicos da BPE



24/09/2014 22:33h



* Por Raphaela Nicácio
  Fotos: Divulgação

    Foi amor à primeira vista. Tudo começou durante as pesquisas para o mestrado em Design da UFPE. Ao se depararem com as coleções de obras raras da BPE, os designers e pesquisadores Sebba Cavalcante e Silvio Barreto Campello enxergaram no acervo uma parte relevante da história do Design e das Artes Gráficas de Pernambuco. A observação atenta dos pesquisadores resultou no livro "Ilustração e artes gráficas – periódicos da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco (1875 – 1939)". Para realizar o trabalho, foram digitalizadas imagens de 43 revistas antigas com periodicidade mensal, quinzenal ou semanal, possibilitando assim múltiplas abordagens e informações históricas. 

      A Biblioteca Pública Estadual detém um dos acervos mais ricos do Brasil, sendo estimado em 270 mil livros e 370 mil volumes de periódicos. Há, ainda, jornais do início da Imprensa Pernambucana, obras do período colonial e do império, incluindo o período holandês. O livro propõe apresentar o legado das artes gráficas. “Completaremos 200 anos de práticas gráficas em 2017 e pouco se sabe sobre esta história no Estado”, afirma Silvio Barreto Campello que é graduado em Comunicação Visual, mestre em Psicologia Cognitiva e doutor em Typography & Graphic Communication pela University of Reading, Inglaterra. Atualmente é professor adjunto da UFPE, onde leciona e pesquisa no Bacharelado e na Pós-Graduação em Design.

      A obra traça um painel artístico, através dos seis capítulos temáticos: Rumo ao século XX, Caricaturas e charges, Capas, Composições com imagem fotográfica, Propagandas, Tipos e Letras.  Em entrevista ao site da BPE, Sebba Cavalcante revela como foi o processo de produção e pesquisa, além de pontuar os fatos considerados marcantes e decisivos no trabalho. Sebba é designer, produtor cultural, pesquisador e mestre em Design pela UFPE. É o atual gerente do Centro de Design do Recife, vinculado à Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife que se dedica à promoção e articulação do Design no Município.



Capas - O livro "Ilustração e artes gráficas – periódicos da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco (1875 – 1939)"


- No livro, vocês afirmam “evidenciar uma parte importante da memória das artes gráficas do Estado”. Quais foram os recortes da pesquisa considerados relevantes  na história dessa memória gráfica pernambucana?

A memória das artes gráficas e do design do Estado está guardada em acervos como o que tivemos contato na BPE. E, infelizmente, ainda é desconhecida, mesmo nos meios especializados. Se formos indagados sobre a produção de design, do começo do século em Recife, não teremos nenhuma resposta a dar. Nossas referências são externas. O que hoje se chama de vintage é sempre atribuído a algo "de fora". A ideia inicial deste livro é mostrar que temos, sim, um legado local de riqueza incontestável. Porém, como estamos nesta etapa inicial de identificar onde podemos ter  material a ser pesquisado é difícil precisar os recortes e as possibilidades. No caso do livro, nos debruçamos sobre o que encontramos na BPE, sabendo que já foram identificados outros títulos de periódicos desde que decidimos encerrar as pesquisas exploratórias. Estamos no começo de um processo de levantamento de uma certa linha do tempo da memória gráfica local, já com muitos dados relevantes como pontuamos na introdução do livro.

-  Através dos periódicos é possível observar melhor a construção de uma linguagem gráfica?

O conjunto que observamos foi basicamente de periódicos, o que hoje seriam revistas de comportamento ou temáticas como as de esportes ou especiais de carnaval. Estes artefatos efêmeros têm a característica de serem produzidos em um espaço de tempo curto e com o objetivo de chamar a atenção do leitor rapidamente para o seu conteúdo e também de ter fácil assimilação. De forma que todo o trabalho da equipe responsável por sua produção exigia agilidade, habilidade técnica e muita criatividade para solucionar problemas de comunicação visual dentro das limitações e possibilidades das tecnologias de impressão da época. 

- Quais foram os elementos gráficos que ajudaram nesse processo de identificação da técnica, layout, design?

Observar as capas requintadas, com ou sem muitas cores e demais elementos gráficos, nos leva a remontar mentalmente um pouco do trabalho em equipe que teve para se chegar a tal resultado. O estudo das tecnologias de impressão nos ajuda a ponderar quais foram as que poderiam ter sido utilizadas no Estado, nos períodos de cada imagem, considerando sempre que talvez tenham sido  algumas técnicas combinadas. Ainda temos pouca informação sobre quais seriam de fato. O que há são indícios que usamos para supor determinada técnica como a presença ou não de retículas e de manchas que nos apontam para técnicas relevográficas. Não temos a pretensão de que esta seja uma obra definitiva e sim uma provocação para que mais pessoas queiram pesquisar estas imagens.


Autores - Silvio Barreto Campello e Sebba Cavalcante 


- Vocês declaram no livro: "O  que a nós parece, quando olhamos para a produção gráfica do último quarto século XX, é que redatores, artistas e impressores empenhavam-se em realizar um produto de qualidade, inovador e de impacto". Traçando um paralelo com a produção atual, a estética dos periódicos antigos era mais sedutora e atraente? 

Creio que havia uma produção de boa qualidade, assim como muitas imagens de qualidade ruim ficaram de fora. Hoje também há uma produção incrível de artes gráficas, design e ilustração em Recife. Um cenário particularmente diverso e pujante. Porém é inegável que, olhando para todas estas belas imagens, não nos deixemos seduzir pelo conceito de "vintage" que elas trazem naturalmente. E melhor, ainda, sabendo que a maioria delas é de produção local e não de fora do país... Sem nutrir ambivalências bairristas, com o que vem de fora,  podemos nos alimentar deste romantismo e desejo por uma estética "retrô" com referências locais que nos pertencem. Em meio a tanta coisa boa que encontramos é difícil apontar apenas alguns exemplos. Mas podemos mencionar o trabalho de Heinrich Moser para as capas da Revista de Pernambuco, periódico cuja vida útil foi de 1924 a 1926.

- Na sua opinião, o design dos atuais jornais pernambucanos também seguem essa mesma linha atrativa?

Considero que os editoriais dos jornais pernambucanos têm um padrão gráfico bom. Em parte, peso de suas tradições gráficas ao longo da história. O Diário de Pernambuco, o mais antigo em atividade da América Latina, tem em sua história a publicação d'O Livro do Nordeste, editado por Gilberto Freyree ilustrado pelo artista gráfico Manoel Bandeira. Já o Jornal do Commercio contou com a presença de peso de Orlando da Costa Ferreira, importante designer e filólogo que coordenou a edição do caderno cultural por alguns anos e assinou a coluna intitulada "Artes e Letras". Orlando também participou ativamente do Gráfico Amador, junto com Aloísio Magalhães, Ariano Suassuna, entre outros.

- Entre as décadas de 1820 e 1830, iniciou-se a produção de caricaturas no Brasil sendo utilizada a técnica da xilogravura. Das charges e caricaturas analisadas, quais foram as que mais chamaram a atenção?

Infelizmente, no que encontramos não houve a presença marcante de charges e caricaturas. Foram poucas encontradas. Vale ressaltar que, segundo Luciano Magno, a primeira caricatura publicada no Brasil foi n'O Carcundão, lançado em Pernambuco, como mencionamos no capítulo dedicado ao tema. No mais, há a presença de um quadrinho merecedor de destaque por sua semântica singular. Há também a evidência de caricaturas e primórdios de quadrinhos no primeito capítulo, em que mostramos alguns periódicos do século XIX.

- As capas, os tipos de letras e as composições com imagem fotográfica revelaram as mudanças que estavam acontecendo no parque gráfico pernambucano, durante a primeira metade do século XX? Que mudanças foram essas?

De uma forma geral, vale comentar sobre o surgimento da litografia em Pernambuco, em seguida da clicheria/autotipia, para um pouco mais à frente chegar a tecnologia Off Set, antes mesmo de aparecer o micro computador. Nós podemos observar algumas destas mudanças entre as imagens, sem porém precisá-las. Mas percebemos dados interessantes, tais como a irônica presença de composições mais rebuscadas durante o apogeu da litografia, em que tudo era feito a mão, em contraposição a composições bem mais simples/sintéticas, quando já teríamos uma técnica em tese mais avançada e ágil como a clicheria que nos permitiria uma tiragem maior e mais controle sobre a produção da imagem. 

- Há um capítulo no livro dedicado às propagandas. E o artista gráfico Manoel Bandeira é citado. Em sua dissertação da pós-graduação da UFPE, você resgatou a trajetória desse design que participou intensamente da produção gráfica de Pernambuco no período de 1915 a 1960. Ele foi considerado um precursor da propaganda publicitária no Estado?

Em minha dissertação pontuo que seu primeiro emprego, aos 15 anos, foi em uma empresa que seria a precursora das agências de peopaganda do Estado. Este é um ponto que ainda merece pesquisas e dados sobre quando demos início a uma produção própria de propagandas e de que forma se deu. Se em revistas, cartazes ou outros formatos. Posso afirmar que Bandeira, ao longo de sua trajetória, construiu um conjunto de propagandas de relevância ímpar com destaque as composições para a marca Peixe.

- Nessa sua dissertação da pós, você declarou que a produção do design Manoel Bandeira se inseria no contexto do regionalismo de Gilberto Freyre e no modernismo provinciano de Joaquim Inojosa. A literatura influenciou muito as artes gráficas? 

Bandeira foi um designer de qualidades indiscutíveis. E mais importante, soube dialogar muito bem entre o os valores locais e os valores externos como as tendências vigentes do Art Déco e a xilogravura. Além destes, transitava com fluidez pelo mundo rebuscado da heráldica e das referências mais clássicas vindas da Europa. Creio que a literatura sempre andou junto das artes gráficas, uma influenciando a outra. No trabalho de Bandeira, há muitas ilustrações para contos, por exemplo, ao mesmo tempo que ele é mencionado por escritores e poetas como é o caso da amizade com o homônimo Manuel Bandeira que lhe rendeu uma matéria de título "Xará, o batuta é você". De forma que entre coerências e contradições ideológicas de sua época, Bandeira soube atuar com maestria, propondo mais, e mostrando que pontos tão aparentemente díspares podem se conectar e se complementar como bom designer que foi.

- Você já tem em mente um novo projeto de pesquisa a ser realizado? Pode nos revelar um pouco o que seria?

Pretendo seguir para um doutorado em breve, aproveitando o mesmo formato de pesquisa a que venho me dedicando.

 

Raphaela Nicácio - é jornalista, editora de livros com especialização em Jornalismo Cultural pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). É escritora premiada pela Fundação Assis Chateaubriand e pela Academia Pernambucana de Letras.



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