Homenagem a Nelson Rodrigues

O jornalista Geneton Moraes entrevistou, em 1978, o dramaturgo na hora do jogo da Seleção Brasileira



19/09/2012 00:00h



       O que parecia improvável aconteceu com um jovem e talentoso repórter. Entrevistar o dramaturgo e cronista esportista, Nelson Rodrigues, na hora do jogo da Seleção Brasileira, no dia 1º de maio de 1978. O “repórter intruso” é Geneton Moraes, considerado hoje um dos maiores nomes do jornalismo brasileiro. Mestre na arte da entrevista, fez trabalhos históricos em muitos veículos de comunicação, a exemplo da Rede Globo de Televisão. E foi através da emissora de TV, Globo News, que a Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco conseguiu autorização do jornalista Geneton Moraes para republicar a sua entrevista com Nelson Rodrigues.

        A biblioteca presta uma homenagem ao centenário de nascimento   do dramaturgo, apresentando mais detalhes de sua vida e obra, declarando ainda seu amor à terra natal. “Eu gosto do Recife pra burro. Vim de lá aos cinco anos de idade. Fiquei lá até o ano de 1929. Você veja: me dá pena estar pensando no Recife e nunca ir lá. Tenho, em minha memória profunda, um apelo de pernambucano pelo Recife”, afirmou Nelson durante a entrevista que segue na íntegra.

CENAS DE UM ENCONTRO COM UM GÊNIO CHAMADO NELSON RODRIGUES: “AO CRETINO FUNDAMENTAL, NEM ÁGUA”

As incríveis cenas dos bastidores de um encontro com Nelson Rodrigues, maior dramaturgo brasileiro, pernambucano exilado no Rio, estilista número um da crônica esportiva.

Por Geneton Moraes

Meu primeiro, único e último encontro com o gênio Nelson Rodrigues começou com uma dúvida devastadora: por que diabos ele teria marcado nossa entrevista justamente para a hora de um jogo da seleção brasileira? Não é possível, deve ter havido algum engano – eu pensava com meus botões, enquanto caminhava pelas calçadas do Leme, na beira- mar, no Rio de Janeiro, em direção ao apartamento do homem.

Se Nelson Rodrigues escrevia aquelas crônicas geniais sobre futebol no jornal O Globo, é óbvio que ele não iria dar uma entrevista a um forasteiro pernambucano no exato momento em que a seleção brasileira entrava em campo, no Maracanã, com transmissão ao vivo pela TV. Se desse, como é que ele iria escrever sobre o jogo no jornal do dia seguinte? Não, deve ter havido um grande equívoco. É melhor que eu desista. Nélson não iria dar entrevista alguma num momento tão inoportuno. Ou iria?

Mergulhado num poço de constrangimento, aperto a campainha. A entrevista tinha sido marcada por telefone. Uma mulher abre a porta. Ao fundo, vejo a imagem de Nelson Rodrigues esparramado numa poltrona. Os pés estão fora dos sapatos. Não faz frio, mas ele veste um suéter sobre a camisa de mangas curtas. Pende na parede da sala uma foto emoldurada de Nelson Rodrigues em companhia de Sônia Braga e de Neville de Almeida – atriz e diretor da versão cinematográfica de “A Dama do Lotação”.

Quando a mulher avisa em voz alta que “o repórter de Pernambuco” estava na porta da sala, Nelson ergue os braços, agita as mãos, saúda o ilustre desconhecido com uma exclamação calorosa, como se reeencontrasse um amigo de infância: “Conterrâneo! Conterrâneo!”.

O cumprimento efusivo não afasta o temor de que Nelson tenha cometido um pequeno equívoco: ao marcar a entrevista para aquele horário, ele bem que pode ter se esquecido de que a seleção brasileira iria entrar em campo dentro de instantes. A hipótese pode parecer absurda, mas quem sou eu para menosprezar as possíveis excentricidades de nosso herói?

Tento uma solução alternativa para escapar de um vexame: digo que posso voltar depois para gravar a entrevista; não quero importuná-lo na hora do jogo. Teatral, Nelson Rodrigues repousa a mão direita sobre o peito, como se sugerisse uma pontada no coração. Olha para a televisão, pede à mulher: “Tirem o som desse aparelho! Tirem o som desse aparelho! O Brasil me faz mal! O Fluminense me faz mal!”. A mulher e a irmã de Nelson riem da cena teatral. Hiperbólico, épico, exagerado, o homem é uma fábrica de tiradas dramáticas. Desconfio de que acabo de me transformar em solitário e privilegiadíssimo espectador de um espetáculo teatral chamado Nelson Falcão Rodrigues, encenado pelo próprio autor.

A ordem de Nelson – “tirem o som desse aparelho!”- é  imediatamente atendida. O aparelho de TV fica mudo. A seleção entra em campo: Leão; Toninho, Oscar, Amaral e Edinho; Batista, Toninho Cerezo e Rivelino; Zé Sérgio, Nunes e Zico. Assim, este forasteiro se vê de repente na condição de coadjuvante de uma cena surrealista: diante de uma TV sem som que transmitia o jogo da seleção brasileira contra o Peru, o autor das mais brilhantes crônicas já escritas sobre o futebol brasileiro simplesmente tira os olhos do vídeo para responder ao interrogatório de um visitante que chegou em hora inconveniente, munido de um gravador e um bloco de anotações. Improvisado como fotógrafo, o também pernambucano Wilson Urquisa vai flagrando, com uma velha Olympus, as poses teatrais de Nélson Rodrigues.

Se houvesse justiça nesta República, uma lei deveria determinar que, depois de Nelson Rodrigues, ninguém deveria escrever sobre futebol no Brasil. Porque é extremamente improvável que um candidato a sucessor consiga igualar o brilho do texto deste pernambucano que passou quase toda a vida exilado no Rio de Janeiro.

A coleção de pérolas rodrigueanas daria para encher uma enciclopédia. Rui Castro organizou, para a Editora Companhia das Letras, um volume que reúne, sob o título de “Flor de Obsessão”, as “mil melhores frases” do homem. Se quisesse, reuniria três mil, como estas vinte:

“O brasileiro é um feriado”.

“O Brasil é um elefante geográfico. Falta-lhe, porém, um rajá, isto é, um líder que o monte”.

“Sou a maior velhice da América Latina. Já me confessei uma múmia,com todos os achaques das múmias”.

“Toda oração é linda. Duas mãos postas são sempre tocantes, ainda que rezem pelo vampiro de Dusseldorf”.

“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”

“Na vida, o importante é fracassar”

“A Europa é uma burrice aparelhada de museus”.

“Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. O repórter mente pouco, mente cada vez menos”.

“Daqui a duzentos anos, os historiadores vão chamar este final de século de “a mais cínica das épocas”. O cinismo escorre por toda parte, como a água das paredes infiltradas”.

“Sexo é para operário”.

“O socialismo ficará como um pesadelo humorístico da História”.

“A pior forma de solidão é a companhia de um paulista”.

“Suddesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos”.

“As grandes convivências estão a um milímetro do tédio”.

“Todo tímido é candidato a um crime sexual”.

“Todas as vaias são boas, inclusive as más”.

“O presidente que deixa o poder passa a ser,automaticamente,um chato”

“Não gosto de minha voz. Eu a tenho sob protesto. Há, entre mim e minha voz, uma incompatibilidade irreversível”.

“Sou um suburbano. Acho que a vida é mais profunda depois da praça Saenz Peña. O único lugar onde ainda há o suicídio por amor, onde ainda se morre e se mata por amor, é na Zona Norte”.

“O adulto não existe. O homem é um menino perene”.

Fui testemunha ocular de uma verdade inapelável: Nelson Rodrigues era um cronista tão perfeito que nem precisava ver o jogo. O resultado da partida, as escaramuças dos jogadores, os esquemas táticos, todas essas bobagens não passavam de detalhes secundários aos olhos do gênio. A Nelson Rodrigues, importava a escalação do adjetivo certo na frase certa. Pouco interessava a distribuição de beques ou atacantes no retângulo verde. O relato dessas banalidades é tarefa que cabe aos “idiotas da objetividade” – estes pobres seres que só são capazes de enxergar a rala superfície dos fatos.

A missão que Nelson Rodrigues outorgou a si mesmo era outra: traduzir em palavras a dimensão épica da maior paixão brasileira – o futebol. Para que, então, perder tempo com miudezas? Para que ouvir o narrador descrever o jogo na TV? Para que saber os nomes dos jogadores do Peru? Para que saber se o meio-de-campo do Brasil estava ou não estava inspirado?

-“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana.  Às vezes, num córner bem ou mal batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural”, ele escreveu uma vez.


Nelson Rodrigues preferia se ocupar de questões metafísicas – como, por exemplo, a inapetência de nossos escritores brasileiros em tratar do futebol. Numa de suas tiradas clássicas, reclamou:

- Nossa literatura ignora o futebol - e repito: nossos escritores não sabem cobrar um reles lateral.

A frase é erradamente citada nove a cada dez vezes em que aparece em textos publicados em nossos jornais. Virou lugar-comum dizer que Nelson Rodrigues reclamava de que nossos escritores não sabem nem bater um escanteio. É uma inexatidão. A implicância de Nelson era com literatos incapazes de cobrar um lateral. Mas, a bem da verdade, os que deturpam a queixa de Nelson não estão inteiramente errados: não apareceu ainda um escritor brasileiro capaz de bater um escanteio ou um lateral...

Alheio a esta fraqueza nacional, Nelson parece distante da disputa que se desenrola, ali, diante de nós, no vídeo da TV, entre a seleção brasileira e o escrete peruano. Faz ao repórter uma pergunta incrível: “Quem é o nosso adversário hoje?”. Informo que é o Peru.

Fique registrado para a posteridade que o maior cronista do futebol brasileiro não precisava necessariamente saber quem era nosso adversário.

Quando Zico faz um a zero, aos trinta e quatro minutos do primeiro tempo, Nelson interrompe a entrevista para inaugurar, aos brados, uma nova expressão exclamativa:

- Que coisa beleza! Que coisa beleza!

Depois, pede à família: “Pessoal, com licença dos nossos visitantes, vamos fechar essa máquina porque já estou começando a ficar nervoso”. Aos não iniciados nas sutilezas do dialeto rodrigueano, esclareça-se que “fechar a máquina” significa desligar a televisão – o que, aliás, não foi feito. Nelson dispara, então, um julgamento entusiasmado sobre o escrete dirigido por Cláudio Coutinho :

- Mas esses rapazes são uns gênios! Uns gênios!

O repórter seria novamente surpreendido. Nelson já perguntara quem era “nosso adversário”. Agora, ao ver o replay do gol recém-marcado, toma um susto:  “Mas já houve dois gols?”. Digo a ele que não: é apenas a repetição do primeiro gol. O placar é um a zero. O gênio da raça concorda com um “ah, sim!”. Teria dois outros motivos para vibrar: o mineiro Reinaldo – que entraria no lugar de Nunes - faria dois gols, aos 20 e aos 40 minutos do segundo tempo, para fechar o placar: Brasil 3 x O Peru.

(Corro à banca no dia seguinte para comprar o jornal. O que diabos Nelson Rodrigues teria escrito sobre o jogo que eu não o deixara ver? Eis:

- Vejam vocês como o futebol é estranho – às vezes maligno e feroz. Mas não quero ter fantasias esplêndidas. O jogo Brasil x Peru, ontem, no Mário Filho, não assustou a gente. Diz o nosso João Saldanha: “O Brasil fez seu jogo, jogo brasileiro”. Vocês entendem? Não há mistério. O brasileiro é assim. Quando um de nós se esquece da própria identidade, ganha de qualquer um. Outra coisa formidável: na semana passada, um craque nosso veio me dizer: “Nelson, é preciso que você não se esqueça: ao cretino fundamental, nem água”.  “O jogo foi lindo”.


Penso com meus botões que Nelson não precisou esperar pelo início do jogo para escrever a crônica. Com certeza, despachou o texto para o jornal antes da chegada do repórter intruso. Os “idiotas da objetividade” se encarregariam de registrar, nas páginas esportivas, o jogo real. Porque o jogo de Nelson seria lindo de qualquer maneira. E aos cretinos fundamentais? Aos cretinos fundamentais, nem água.

A lista de surpresas nessa tarde no Leme não se esgotaria aí. Quando deu por encerrada a entrevista, Nelson pergunta ao repórter: “E então, você me achou muito reacionário?”. Não, claro que não. Em seguida, pega o telefone, liga para a cozinha do Hotel Nacional, identifica-se e faz uma pergunta a um maitre provavelmente atônito:

- Companheiro, aqui é Nelson Rodrigues. Qual é o prato do dia?

Ouve a resposta em silêncio, desliga o telefone. Recolhido ao sossego do lar, no fim de tarde de um feriado, já parcialmente debilitado por doenças que lhe encurtavam o fôlego, Nelson jamais se animaria a ir até o Hotel Nacional para saborear o prato do dia. Mas fez questão de tirar a dúvida com o maitre. Para quê?

As cenas que Nelson Rodrigues protagonizou nesta tarde no Leme já valiam por uma entrevista. Mas o interrogatório ainda iria começar. A fera dispensa ao repórter um tratamento afetuoso: chama-me de “meu bem”. Alheio ao eventual cansaço de Nelson, estico a conversa até o limite máximo. Não quero desperdiçar a chance de ouvir de viva voz as tiradas do cronista inigualável. A irmã do gênio é que, delicadamente,interrompe o questionário no instante em que Nelson fez uma pausa para engolir uns comprimidos. Ao autografar o exemplar do livro de crônicas “O Reacionário” – consultado durante a entrevista – Nelson Rodrigues oferece-me uma dedicatória dúbia: “A Geneton, amigo doce e truculento – Nelson Falcão Rodrigues”.

Quase um quarto de século depois (a entrevista foi gravada no dia 1 de maio de 1978) ouço novamente a fita, releio a transcrição da entrevista. Confirmo que Nelson Rodrigues é um caso raríssimo de escritor que falava como escrevia. Só há outro caso: Gilberto Freyre. Transcritas, as entrevistas dos dois em certos momentos se assemelham aos textos que escreviam, o que é uma façanha: a linguagem falada normalmente é mais pobre que a linguagem escrita. Mas a regra – guardadas as naturais diferenças entre o que se fala e o que se escreve - nem sempre valia para os dois.

A entrevista foi embalada por citações ao livro “O Reacionário”, lançado por Nelson meses antes. Durante toda a entrevista, Nelson fez, repetidas vezes, citações a histórias e personagens descritos em “O Reacionário”.  De vez em quando, entre uma resposta e outra, ele mudava repentinamente de assunto; parecia afogado em divagações. Chegou a reclamar: “Eu estou tendo lapsos lamentáveis....”. Assim, frases de “O Reacionário” complementam, nesta entrevista, as respostas gravadas por Nelson Rodrigues.

Os melhores momentos do diálogo improvável entre Nelson Rodrigues – o gênio que se intitulava “a flor da obsessão” – e o repórter intruso:

GMN: Quando foi que Nelson Rodrigues descobriu que nascera para escrever?

Nelson: “A coisa é a seguinte: escrever para mim, muito mais do que uma decisão profissional, é um destino. Escrever é o meu destino! Não é um caso de opção. Eu só tinha esta opção, uma vez que nasci assim”.

GMN: O senhor se considera um escritor por vocação?

Nelson:“Digo que, no meu caso, eu nem precisava de vocação, porque o negócio era o óbvio – o óbvio ululante! Eu tinha de ser aquilo. Se você chagasse junto de mim e pedisse para eu ter outra profissão, podia até dar dinheiro para que eu tivesse outro destino, não seria absolutamente possível”.

GMN: O início foi com ficção ou com jornalismo?

Nelson: “Eu estava no quarto ano primário na Escola Prudente de Morais. Um dia, a professora – que mandava a gente desenhar e colorir uma vaca de estampa, para que nós, alunos, fizéssemos em torno da vaca toda uma história – disse: “Olhem aqui: Hoje, vocês vão ter de escrever da própria cabeça. Agora não é mais sobre a vaca pintada”. E então deixou que cada um de nós fizesse o seu drama, o seu projeto dramático. Duas histórias tiveram o primeiro lugar. A do meu adversário era um a história de um daqueles magnatas que davam passeios. Ele descrevia o passeio de um rajá no seu elefante favorito. E pronto. A minha foi inteiramente diferente. Eu fiz a história de uma moça que era uma fera. Quase uma dama do lotação.Um dia, o marido chega em casa mais cedo e, quando empurra assim (imita o gesto de alguém forçando o trinco de uma porta). Entra em casa, segura o amigo traidor e enfia nele uma faca. Eu tive o primeiro lugar e empatamos. O prêmio ao rajá e ao respectivo elefante era uma concessão ao convencional.

Isto foi a primeira vez em que eu era ficcionista. Todo o meu futuro está aí. Era a história de uma pobre adúltera que morreu de maneira tão melancólica. O traidor morreu também de maneira melancólica: direi, a bem da verdade, que a minha história causou um horror deliciado. Eu era, para todos os efeitos, um pequeno monstro.

Eu comecei com treze anos a trabalhar como jornalista profissional e repórter: esse é o caso. Não teria jeito: eu teria de meter uma bala na cabeça…”.

GMN: Para o senhor – que é considerado um mestre nesse ofício – o que é necessário para retratar, num texto teatral, o mundo desses personagens suburbanos das nossas cidades?

Nelson:
“Em primeiro lugar, o sujeito tem de ser ficcionista. Precisa ser inteiramente sensível ao primeiro chamamento da profissão. Não basta apenas o gosto. Não é apenas uma facilidade, mas um destino” (pronuncia em tom dramático esta palavra)

GMN: A inspiração é uma entidade que existe para o senhor?

Nelson:  “O negócio da inspiração é o seguinte: eu considero a inspiração, ao contrário de Valèrie, que só via a máquina individual do ficcionista.  Aquilo é uma coisa que o ficcionista apura com o tempo, desenvolve com a experiência”.

GMN: Dentre as peças que escreveu, qual a que o senhor considera como definitiva, como a obra acabada do dramaturgo Nelson Rodrigues?

Nelson: “O mais importante para mim, até o momento, é o dramaturgo. Volta e meia, me sinto muito perplexo diante de certas manifestações que me induzem ao teatro, embora o teatro tenha um defeito: tenho de vez em quando vontade de fazer certas experiências não teatrais dentro da área de literatura, mas sem ter nada de dramático”.

GMN: Dentre as peças já escritas, qual é a predileta?


Nelson: “Tenho várias prediletas. Eu diria mesmo que são todas as prediletas. Não tenho prediletas (ri). Todas são favoritas. Já pensei muito em querer discriminar qual a minha melhor peça, mas não sei”.

GMN: Que autores brasileiros de hoje o senhor considera como verdadeiros artistas do teatro?

Nelson: “Vou pular esta, porque tenho autores que são inimigos meus. Pior do que o inimigo é o amigo. Um autor que é um amigo tem todos os defeitos…”

GMN: O senhor diz sempre que “a admiração corrompe”. É o caso?

Nelson:
“É isso, é o caso. A admiração corrompe. O amigo que é o nosso maior torcedor não é o maior coisa nenhuma, porque, ele próprio, não consegue se prender. Então, começa a fazer insinuações e etc… Como eu sinto, evidentemente, o nosso amigo, o inimigo, com a maior facilidade, então eu prefiro o inimigo” (ri).

GMN: Se o senhor fosse levado a fazer uma hipotética opção entre o teatro e o jornalismo, qual dos dois preferiria?

Nelson: “O teatro! E não é um problema de qualidade intelectual não”.

GMN: O jornalismo brasileiro continua padecendo de objetividade? – que o senhor considera uma “doença grave”?

Nelson: “O idiota da objetividade é o jornalista que tem grande fama, todo mundo, quando fala dele, muda de flexão. Mas eu acho o idiota da objetividade um fracasso. Isso num julgamento absoluto. O idiota da objetividade é também um cretino fundamental”.

GMN: Quais foram as causas da ocorrência desse culto à objetividade que, no conceito do senhor, corresponde à falta de emoção?

Nelson: “Pois é, é esse o negócio (ri de novo). É a falta de complexidade do sujeito que diz só a coisa certa ou aparentemente certa e não vê que todo fato tem uma aura. A verdade é que o fato só, em si mesmo, é uma boa droga. Olhe aí (e mostra a crônica “A Desumanização da Manchete”):

O “Diário Carioca” não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: o fato e a sua cobertura. Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção da população. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy. Na velha imprensa, as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy-desk, sumiu a emoção de títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do “Jornal do Brasil”. A manchete humilhava a catástrofe. O mes